sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Apagando as velinhas

Estamos comemorando hoje mais um ano de vida de Noélia Estrela (foto ao lado), minha esposa, excelente poeta e contista. A alegria neste momento é imensurável por dois outros motivos: o primeiro está ligado ao nascimento do nosso primeiro filho em comum, previsto para maio, o segundo é que recentemente foi divulgado que um dos seus contos, “Urubus”, foi premiado pelo Bahia de Todas as Letras, um dos mais relevantes prêmios literários aqui da terrinha.
Felizes, comemoraremos.
Aproveito a oportunidade para mostrar uma Ode que fiz em louvação ao dia em que conheci a minha metade.

25 DE FEVEREIRO

Para Noélia Estrela

I

Aquele dia, amor,
foi como a seta encontrando o alvo,
foi como a noite escorrendo densa,
foi como o campo recebendo a chuva.
Foi como um verso de Neruda
todo feito à festa e fúria.
Louca, procuravas minha boca,
assim como eu procurava tuas entranhas.
Colori teu corpo com a cor dos sonhos,
me fiz teu servo, minha amada,
enquanto pássaros embalavam nosso galope.
Não era noite nem era dia,
não corria o tempo,
não ardia o sol,
não havia verso na poesia,
sobre o nosso corpo nem sequer lençol.
Não havia solo sob os nossos pés,
não havia nuvens pelo azul do céu,
nenhuma dúvida, nada a nos apressar.


II

Não me serve o tumulto lá fora,
tampouco os sinais de quem pede pra voltar,
pois por ti, Estrela minha, vai meu sangue,
meus olhos quando os fecho,
meus lábios enquanto suspiro.
Este corpo, embora cansado da luta,
caminha para te alcançar
porque é teu ventre o meu repouso
e tua força a força que me faz continuar.
E por me ofereceres a vida
eu trago a ti o esplendor da rosa,
as cores vibrantes das orquídeas,
o horizonte ornado de arco-íris
e a inadvertida presença da poesia entre nós.
Também trago a certeza dos pássaros passando,
por isso me refugio no teu colo,
de onde examino a vida
e agradeço por tudo aquilo que não sou.

Ilhéus/Itabuna 7
25.06.2008

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Três poemas de natal

Evidente, cada ser sente o natal à sua maneira. Reuni três poemas de autores de tempos distintos, que veem a data sob prismas diferentes. Um deles é de minha autoria. Os outros são de Vinícius de Morais e Fernando Pessoa. Em Vinícius encontramos o binômio nascer/morrer, em síntese. Já em Pessoa há um quê de nostalgia, de melancolia, de solidão. Naquele que compus há um estranhamento frente à realidade do nosso tempo.

Poema de Natal
Vinícius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.


Poema de Natal
Fernando Pessoa

Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!


Poema de Natal
Gustavo Felicíssimo

Dezembro é o cruel mês do natal,
hoje, a sua véspera,
além disso, faz um calor insuportável.
Há grande descontentamento no país,
enormes congestionamentos nas cidades
e as pessoas parecem felizes.
A miséria continua no seu galope
e as pessoas parecem felizes,
inclusive os miseráveis.
Esses se abundam nas calçadas
e mendigam com seus filhos
e com os filhos de outros desgraçados.

Negócio promissor...
Vou sair pra ver o mar!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Renga para o Rio Cachoeira

A renga é uma forma poética japonesa largamente praticada por Bashô (ilustração ao lado), o grande mestre, e que, desde o século XVII, realça a arte da transição ao encadear, respectivamente, estrofes sasonais de três e dois versos escritos por dois ou mais autores. Originalmente, uma renga é composta de 36 estrofes, em homenagem aos 36 poetas imortais do Japão. Também é chamda de Kasen, poesia dos sábios.
Eu e o poeta George Pellegrini compusemos uma, da qual trago as cinco primeiras estrofes. Os tercetos são de minha autoria, os dísticos, evidentemente, são do meu parceiro. Esperamos que gostem!


I
madruguei chorando –
silenciou-se o grande rio
ao me ver nascer

o lusco-fusco da aurora
descortinou as estradas

II
e seguiu seu curso
infinito em suas curvas
terno em meu olhar

espelho d’água revela
outro rosto ensimesmado

III
silente e calado
ele desfez os mistérios:
canções ao luar.

os gritos da acauã
faziam o coro na mata

IV
puro em sua nascente
desce o rio cortando o campo
espalhando vida.

e na calma dos remansos
a morte sobe fecunda

V
e vai todo em brasa
dentro da noite ferida
onde os sonhos erram

os pesadelos comandam
a saída para o mar

domingo, 13 de dezembro de 2009

O primeiro livro brasileiro de haikai

Que Deus entendeu de dar/ A primazia/ Pro bem, pro mal/ Primeira mão na Bahia/ Gilberto Gil
Para Carlos Verçosa, autor de “Oku: viajando com Bashô”, coube ao poeta, romancista e crítico baiano, Afrânio Peixoto (foto ao lado), não apenas o mérito pioneiro de introduzir e divulgar o haikai no Brasil, em 1919, apresentando o haikai como um epigrama lírico, em “Trovas populares brasileiras”. Peixoto também teria sido o primeiro brasileiro a publicar um livro de haikai.
Em Missangas, 1931, no capítulo X, após o ensaio “O haikai japonês ou epigrama lírico”, Peixoto publica 52 haikais de sua autoria. Diz Verçosa que se trata de um "autêntico livro inserido em um outro livro". Desse modo, o escritor baiano não só deve ser considerado o precursor do haikai no Brasil, como também o primeiro poeta a publicar um livro de haikai no nosso país. Até então, esse mérito era de Siqueira Júnior, com o livro "haikais", publicado São Paulo, no ano de 1933.
Polêmicas à parte, segue alguns haikais da lavra de Afrânio Peixoto:

Na poça de lama,
Como no divino céu,
Também passa a lua.

***

Um aeroplano
Em busca de combustível...
Oh! é um mosquito.

***

O sabiá canta,
Sempre numa mesma canção:
O belo não cansa.

Novo livro de Carlos Pronzato

Comemorando 20 anos de baianidade, o meu amigo Carlos Pronzato, escritor, diretor teatral e cineasta argentino, no dia 14 de dezembro, segunda feira, às 18 horas, lança na Fundação Casa de Jorge Amado, Centro Histórico de Salvador, o livro “Jorge Amado no elevador e outros contos da Bahia” (84 páginas, Editora A, Rio de Janeiro). O livro é composto de onze contos que transitam no universo mágico da Bahia, perfazendo um itinerário literário que pretende também ser uma homenagem a um dos maiores escritores do Brasil, Jorge Amado, que empresta o seu nome ao conto que dá titulo ao livro.

Aproveito a deixa para republicar uma micro entrevista que fiz com Pronzato.

Gustavo Felicíssmo – Meu caro Pronzato, como o cinema influi na sua poesia, ou, se preferir, como ambos se unem, se conectam, em sua obra?
CP
- Há inúmeros filmes que com o seu instrumental técnico e narrativo específico se aprofundam em universos poéticos imagéticos, com maior ou menor sucesso, segundo as expectativas do diretor. Penso em Bergman, em Fellini, em Tarkovski, em Resnais, por exemplo, cujas explorações da subjetividade criaram mundos cinematográficos imaginários, poéticos. Esses universos criados a partir da sensibilidade do artista cinematográfico estariam em condições de influenciar, de aceder, ou, melhor dizendo, de ocupar – já que uma ação involuntária – o território do poeta? Acho que sim, no meu caso, já que, por força do meu trabalho diário nos dois suportes, a criação constante de pontes entre Terpsícore e a criação póstuma de Dionisios, é inevitável. Apesar de o documentário ter preeminência na minha obra, se essa conexão existe, penso que a influência se dá num percurso de ida e volta, de retroalimentação, fragmentário e anárquico que consegue construir um diálogo na sua inerente incompletude. Assim, imagens registradas pelo nosso olhar num filme, articuladas no seu discurso de conjunção de elementos técnicos, cenográficos, interpretativos e musicais, podem disparar novas imagens no seu caminho ao papel impresso e retornar ao filme acrescido de poesia. É um processo complexo, como a própria criação poética, nunca definitiva, cujos mecanismos de elaboração – ainda bem - ignoramos, e por tanto de infinitas possibilidades.

GF - Hoje, a poesia no cinema estaria mais na atitude do cineasta frente ao seu próprio tempo ou não?
CP
- Sempre tomando como base o cinema de compromisso social, com toda certeza sim. Hoje e sempre. Se houver apenas uma única pessoa que enxergue emoção movilizadora nas imagens de uma rebelião – e isto se estende a todo tipo de luta travada pela emancipação humana, individual ou coletiva -, de um ato de coragem e valentia frente aos poderosos e saqueadores de sempre, ou inclusive, num estágio posterior, num processo de construção social igualitária, haverá poesia, haverá algo além de uma feliz combinação de palavras num papel. E, levando em conta a penetração massiva que o cinema – e os seus derivados televisivos e internéticos - tem no mundo contemporâneo, quem assume esta atitude de inscrever sua leitura do mundo - e no mundo -, além da sua particular transcendência como indivíduo, estará muito além da criação de um espaço íntimo e individualista, forjando poesia coletiva.
Também podemos encontrar a atitude do cineasta com propostas de transformação social, que por profundas discordâncias com os processos políticos contemporâneos conhecidos assume um relato mais pessoal para se expressar politicamente, e não por isso menos comprometido.
E parafraseando o poeta: tudo vale à pena, quando a atitude não é pequena.

GF - Se o cinema é a indústria dos sonhos, a poesia seria o próprio sonho, a utopia maior?
CP
- Há um cinema, após sua fase de entretenimento de feira, em paralelo à fase de implantação do capitalismo, que impôs seus sonhos industriais de consumo e de perpetuação desse modelo econômico norte-americano, trasladado depois a outras cinematografias do mundo que repetiram esse modelo de acumulação econômica. Sonhos todos, técnica e industrialmente primorosos, que alimentavam – e alimentam - o imobilismo, a contemplação pura e simples de um modelo único de consumo, de uma realidade de eternos e inatingíveis oásis – visão hoje relegada aos subprodutos noveleiros. Felizmente, há outros cinemas que souberam explorar outras inúmeras possibilidades estéticas e aquelas geralmente denominadas políticas. Nestas últimas, há o objetivo de trasladar o sonho libertário da tela para a realidade numa tentativa migratória tão utópica quanto necessária.
Mas em fim, a utopia, o não lugar, é o espaço da poesia. Cabe à realidade e ao cinema – às suas diferentes linhas e gêneros – se aproximarem dela.

Blog do Pronzato:
www.lamestizaaudiovisual.blogspot.com

sábado, 12 de dezembro de 2009

assim como a chuva
uma lágrima acontece
quando precipita

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Pequeno soneto da graça

a Bernardo Linhares


Sendo amigo de um amigo,
o sorriso me ultrapassa,
e por vezes não consigo
me conter de tanta graça.

Em seu berço meu abrigo,
numa infância que não passa,
eis porque tanto me obrigo
a beber na mesma taça,

em que bebe - eu, que não bebo!
E a comprar no mesmo sebo
livros tais de poesia.

E ao pensar em seu sorriso,
rio mais do que preciso
e do que não sorriria...

Henrique Wagner

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Um poema de Silvério Duque

Tudo bem, alguém poderá me dizer que o poeta do azul é Carlos Pena Filho. O seu “Soneto do desmantelo azul” é mesmo uma jóia, mas esse heróico do Silvério Duque, convenhamos, tem seu lugar, um soneto espirálico, marcado por esse último verso: “pois no morrer do azul, nós retornamos”, que deixa o poema em aberto. Muito bom mesmo!

O CARROSSEL DE MARK GERTLER

O carrossel, de Mark gertler (1916):

à Senhora Claudia Cordeiro, un souvenir...

Para Carlos Pena Filho

Por que pintei de azul a nossa estrada?
Por não trazer um céu sobre os sapatos.
Então, busquei, em gestos insensatos,
despir, do azul, o Azul da madrugada.

Para exigir então o azul ausente,
que se espargiu em tuas alpargatas,
roubei de ti o azul das coisas gratas,
que, em teu olhar, nasceu tão simplesmente.

Mas, vestidos de azul, nem recordamos,
haver tantos azuis que azuis se amassem,
qual o Mar e o Céu, no azul, nos espelhamos...

E, perdidos no azul, nos contemplamos,
porque, do azul, as coisas sempre nascem,
pois, no morrer do azul, nós retornamos.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Outro novo haikai

outra vez aqui –
céu e mar se confundem
nas minhas retinas

Um novo haikai

folhas ao vento
são como libélulas –
lume pro haikai

***

a flor que caiu
alça vôo de volta ao ramo:
uma borboleta

(famosíssimo haikai de Arakida Moritake)